A Força do Carimbó em Alter do Chão com Mestre Chico Malta

A Floresta Amazônica guarda segredos que vão muito além de sua rica biodiversidade. Em Alter do Chão, no coração do Oeste do Pará, as águas do Rio Tapajós e os mistérios do Lago Verde servem de cenário para um movimento cultural pulsante, liderado por uma das figuras mais emblemáticas da região: o mestre griô Chico Malta. Em um episódio memorável do Canoa Sessions, gravado na mágica Floresta Encantada, o mestre compartilhou histórias profundas sobre a retomada do carimbó de pau e corda, o nascimento de suas composições e o poder medicinal e social desse ritmo que hoje é patrimônio cultural do Brasil.

O Que é um Mestre Griô?

A palavra “griô” tem suas raízes no termo francês griote, utilizado para designar os contadores de histórias e guardiões da tradição oral na África Ocidental. Trazer essa missão para o contexto amazônico significa ser um elo vivo entre o passado e o presente. Mestre Chico Malta explica que sua função é aprender com os antigos mestres, conectar-se com os encantos da mata e das águas e transformar essa vivência em arte, garantindo que a identidade de seu povo permaneça viva. Descendente de etnias indígenas e casado com uma mulher do povo Borari, ele carrega no sangue a responsabilidade de defender o território e a cultura originária.

Curimbó vs. Carimbó: A Anatomia de um Ritmo

Uma das dúvidas mais frequentes de quem visita o Pará é a diferença entre os termos “curimbó” e “carimbó”. Mestre Chico Malta esclarece que o curimbó é, originalmente, o próprio instrumento musical: um tronco de árvore escavado, cujo nome em tupi significa exatamente “pau oco escavado”. Utilizado ancestralmente pelos povos indígenas como meio de comunicação entre aldeias, o curimbó era tocado com o instrumento na vertical.

A transformação rítmica aconteceu com a chegada dos povos africanos na região. Sem seus próprios tambores, os negros escravizados deitaram o curimbó no chão para tocá-lo montados sobre a madeira, introduzindo a divisão das células rítmicas e o repique agudo. Essa fusão entre a batida grave e ancestral do coração indígena e o “molho” sincopado africano deu origem ao carimbó como manifestação cultural.

Em Alter do Chão, o ritmo ganhou ainda mais contornos únicos devido à imigração nordestina durante o ciclo da borracha. Instrumentos como o violão, a rabeca e a caixa foram incorporados ao carimbó tradicional, gerando vertentes melódicas conhecidas localmente como “carimbó choteado” ou “carimbó chamegado”.

A Quinta do Mestre e a Sereia: Um Espaço de Salvaguarda

Até meados dos anos 2000, o carimbó tradicional de pau e corda estava praticamente extinto em Alter do Chão, substituído por versões eletrônicas. Foi a partir de uma articulação nacional em 2005 que Mestre Chico Malta e outros parceiros iniciaram oficinas de lutheria para reconstruir os instrumentos e resgatar a tradição.

O movimento cresceu tanto que deu origem ao primeiro centro de referência independente de carimbó do estado do Pará, localizado na própria garagem do mestre: a Quinta do Mestre e a Sereia. Realizado religiosamente às quintas-feiras, o evento começou atraindo turistas, mas logo foi abraçado pela comunidade local, tornando-se um ponto vivo de integração social e econômica onde nativos e visitantes dançam juntos sem distinção.

Além de manter o ritmo vivo na rua, o projeto quebrou barreiras históricas ao incentivar a inclusão de mulheres como tocadoras e cantadoras de carimbó — um papel que antes era restrito aos homens. O nome “Sereia” faz alusão a essa força feminina que emerge das águas salgadas do mar para se encantar e fincar raízes nas águas doces do Tapajós.

Carimboterapia: A Música como Instrumento de Cura

Se o carimbó já era reconhecido por sua importância histórica e geográfica, o pós-pandemia revelou uma nova faceta dessa arte: o seu poder terapêutico. Diante do isolamento e das crises de ansiedade que afetaram a população, Mestre Chico desenvolveu a Carimboterapia, realizada às terças-feiras.

A vivência utiliza as batidas do tambor e a dança circular para trabalhar a autoestima, o equilíbrio psicológico e a reinserção social. O mestre relata episódios emocionantes de pessoas que chegaram debilitadas fisicamente e, tocadas pelo transe do ritmo, esqueceram suas limitações e se entregaram à dança.

Esse trabalho estende-se também às salas de aula da comunidade Borari e a atendimentos com crianças atípicas e autistas. A pulsação do curimbó estabelece uma comunicação direta e sem barreiras, arrancando sorrisos e transformando a realidade de quem participa.

Do Pânico à Poesia: A Lenda da Cobra Grande

O processo criativo de Chico Malta é alimentado pela própria vivência na floresta. Durante a entrevista, ele narrou a impressionante história por trás de sua famosa canção, Cobra Grande. Durante uma expedição cultural pelo Rio Arapiuns, a equipe foi surpreendida no meio da noite por um misterioso e imenso foco de luz que brotou do fundo do rio, seguido por um redemoinho violento que prendeu a embarcação.

Em meio ao pânico dos ribeirinhos, que gritavam desesperados para os canoeiros remarem, o mestre mentalizou o clamor popular: “Rema, rema, canoeiro, a canoa não sai do lugar…”. O susto real transformou-se em uma das músicas mais belas do repertório amazônico, provando que na Amazônia, o mito e a realidade navegam no mesmo rio.

Assista à sessão completa e encante-se com a música do mestre Chico Malta no vídeo abaixo. Aproveita e inscreve-se no canal!

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